A Cor (In)Certa
Jean-Michel Basquiat. Self-portrait, 1984
"Lembro-me perfeitamente de
quando a minha mãe me disse que eu tinha a cor certa. Embalado no seu abraço
ternurento, tapado pelo calor doce do seu cobertor, era eu ainda uma criança
quando a ouvi pronunciar aquelas palavras. Segundo ela, a sua própria pele
seria muito escura. Pelo menos perante os padrões de beleza do mundo. E alguns dos mestiços, filhos de brancos que se deitaram com negras, seriam muito claros. Pelo mesmo
para uns, que não os reconheciam como negros. Eu era a exceção. A minha pele
tinha sido abençoada por um cromatismo singular. Eu era claro o
suficiente para ser considerado bonito pelos brancos. E escuro o suficiente
para ser considerado negro pelos pretos. Eu tinha a cor certa.
Lembro-me do calor do seu abraço ter a mesma força das suas palavras. E lembro-me de recordá-las várias vezes na minha vida. Sempre que a minha cor estava em jogo. Quando me confundiram por um criado numa festa pela primeira vez. Quando estranhos tocaram pelo meu cabelo pela primeira vez, tentando penetrar numa floresta para eles desconhecida. Quando ouvi pela primeira vez que até era bonito, mas o meu nariz fazia-me parecer um macaco. Quando um professor me fez lembrar que o meu texto tinha muitos erros de "pretoguês". Quando outro professor me tentou elogiar separando o mundo dos negros em duas partes, os pretos selvagens e os civilizados, e colocou-me no último patamar. ´
Nesses momentos não senti que tivesse a cor certa. Senti que tinha uma cor incerta. Uma cor que carregava a incerteza de não saber de como o mundo me iria tratar."
Nesta página do diário do nosso menino, ele conta-nos parte da sua experiência. O texto reflete não só a visão que a sociedade mantém sobre os corpos negros, mas como essa visão tem as suas raízes no colonialismo, e no processo de desfiguração e construção de estereótipos dos corpos negros, de modo a legitimar a própria colonização e a "civilização" desses corpos. Talvez o exemplo mais flagrante desse processo seja a comparação dos homens e mulheres negras aos seus supostos congéneres, os macacos. No século XIX, várias correntes científicas tentaram comprovar a suposta proximidade do negro ao macaco, distanciando-o do branco, que estaria numa patamar superior da espécie, sendo este mais evoluído e justificando-se assim a necessidade de civilizar as "raças inferiores". Embora a crença tenha desaparecido no mundo cientifico, a utilização da comparação do negro ao macaco com o intuito de o insultar está ainda presente em diferentes lugares da nossa sociedade, desde jogos de futebol até comentários quotidianos banais.
Outro aspeto a realçar no texto é a importância do colorismo na vida da comunidade negra, e de como a gradação da cor de pele pode influenciar a forma como o mundo perspetiva o individuo em questão. O colorismo é responsável por um divisão social entre a comunidade negra, criando uma tensão interna onde os corpos mais claros são muitas vezes considerados mais belos do que os mais escuros, mas também, por vezes, são considerados claros demais para fazerem parte da comunidade. No texto a mãe do menino diz-lhe que ele tem a cor certa, pois é claro o suficiente para ser considerado bonito pelos brancos, mas escuro o suficiente para ser reconhecido como parte da comunidade de afrodescendentes.



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