O Som do Apito


Agora que perdera o filho, a negra vagueia por entre as ruas sozinha. Passeia por entre o mundo desolada, sem o abraço nem o carinho do filho. Fecha os olhos. Quando os abre está em Bissau e um muro ergue-se à sua frente. Do outro lado estão as casas e as vidas dos brancos. Para lá do muro, estão os seus parceiros de cor, irmãos de raça, alinhados à espera de ouvir o sinal e que o agente da autoridade os deixe passar. Por fim, ouve-se um som perfurar o ar. Os negros entram no centro da cidade. A mulher vai com eles. Enquanto percorre as ruas Bissau vê os corpos entrarem na casa dos patrões, limparem-lhe as casas e fazerem as suas refeições. De repente, um negro é arrastado pela rua, partira a loiça dos seus patrões, e agora é levado ao administrador. Não se sabe qual é o castigo que o administrador aplicará, se um mero par de estalos ou uma chicotada, mas o patrão exige que o criado seja castigado, a loiça que partira era cara. A negra prende o olhar naquele homem, arrastado pela rua, desumanizado pelo colonialismo, sem direito a advogado ou milagre que o salve.  De repente, ouve o som de um apito, são seis da tarde. Os negros dirigem-se para o outro lado do muro. Acabou mais um dia de trabalho.  

 

Como nos relata o historiador Leopoldo Almada, diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), desde meados do século XX, até aos finais da década de 50, ouve, em Bissau, um muro que separava o centro da cidade do resto do mundo. Nessa circunscrição habitavam os brancos, os colonos, e só era permitida a entrada da população engra durante um certo período de tempo. Após as seis da tarde soava o apito e os negros tinham que abandonar a cidade, pelo que não podiam pernoitar nem viver nela. Este é um dos exemplos demonstrativos da segregação racial, imposta pelo colono, que, mesmo não constando de nenhuma lei escrita, era rigidamente aplicada pelas autoridades, e provocava um entrave à inclusão do negro no mundo do colono.

O criado que vemos ser arrastado pela rua é também uma das vítimas do colonialismo. Ao abrigo do “Estatuto do Indígena”, o indígena não tinha acesso aos tribunais, pelo que os conflitos que surgissem eram resolvidos através da figura do regedor. Contudo, esta era uma figura arbitrária, que aplicava as decisões que quisesse. Consequentemente, existem relatos de indígenas serem chicoteados por pequenos delitos como a quebra de loiças dos seus patrões, ou pelo roubo de galinhas. Em suma, a justiça para os negros era aquela que os brancos, os colonos, ditassem.   

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