Vermelho Solitário

 

Todas as noites o rapaz sonhava com a morte que não chegara a viver. Regurgitava a sua fúria na sua pele, que nunca mudara de tom, independentemente do sonho, esculpia na sua carne as palavras que o mundo lhe dava, e agora tinha como cicatriz a história da sua cor. Ele, nascido livre, feito escravo numa razia, vendido em Lagos, separado do mãe e vendido de novo, não se lembrava de ter morrido. Mas vivia com inquietação de viver uma vida falsa, como se o bater do seu coração não pudesse percorrer quatro séculos diferentes. Mas aqui está ele, uma criança centenária, de corpo e espírito inquebrável.

Um mar de mãos invade o seu corpo. O rapaz sobressalta-se. Será que querem comprá-lo e por isso apalpam-no? Será que querem levá-lo para trabalhar numa estrada, com uma grilheta no tornozelo? Não. Querem tocar-lhe. Examinar-lhe. Estupefactos, vêm o seu cabelo encaracolado, o seu castanho resplandecente, e, a sair do seu lábio, um fio de sangue que percorre o seu queixo. Os braços dos brancos perseguem-no, os olhos abrem-se, perplexos, e as bocas suspiram:

-Vermelho, vermelho! 

O rapaz é um negro no meio de um mar de brancos. Um homem no meio da natureza densa do campo. Um aglomerado de colinas circunda-o. A solidão abraça-o. Mas o menino não está só, tem a sua pele, ela é o seu escudo e o seu conforto. Não precisa de mais.


Este texto traz-nos de volta, após uma pausa prolongada. Leva-nos a questionar se a história da comunidade negra, intimamente relacionada com a construção do império colonial, acabou com a descolonização. Após o 25 de abril, muitos descendentes das colónias vieram para Portugal. Como foram eles recebidos? Que vida viveram? O filho da nossa escrava, agora livre, encontra-se numa aldeia do interior do país, no final da década de 70. Sem nome, idade, ou qualquer traço de personalidade que o distinga, somente a sua pele a torna identificável. Contudo, para muitos é um ser exótico. Sozinho numa terra que não é sua, o rapaz negro é alcançado por brancos que lhe querem tocar. Nunca viram o mar. Nunca viram um negro. E não sabem que o sangue que corre nas veias de um negro é vermelho como o sangue de um branco. 

Comentários

Mensagens populares