Eusébio

"Com a bola nos pés o negro é invencível. O estádio exalta-se com o movimento da suas pernas. Veloz como uma flecha, o jogador cedo alcança a grande área. Após um truque consegue ultrapassar a defesa e lança a bola para o ar. A esfera viaja como uma bala, trespassa as mãos do guarda-redes e mergulha na rede da baliza. O estádio vai ao rubro. As bancadas levantam-se para o aplaudir. Nunca o negro chegara tão longe. Nunca um negro viera de tão longe. Ainda há pouco tempo jogava com os pés descalços nos subúrbios de Lourenço Marques, viva numa casa rudimentar, onde um telhado de zinco tapava o céu estrelado, e a fome muitas vezes dormia à noite com ele. Agora tem os aplausos do mundo. Tem a admiração do mundo. Nunca um negro chegara tão longe. Nunca os brancos tinham deixado um negro fazê-lo."


Nascido em 25 de janeiro de 1942, em Moçambique, na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, Eusébio da Silva Ferreira nasceu e foi criado num ambiente de pobreza extrema. Após a morte do seu pai na infância, a sua mãe esforçou-se para sustentar os seus filhos. Aos quinze anos, Eusébio era praticamente analfabeto, e pouco sabia ler e escrever. Como tal, era considerado indígena pela lei colonial. Em 1960, encontrava-se a jogar pelo Sporting de Lourenço Marques quando foi abordado por benfiquistas naquela que se tornaria a transferência mais célebre da história futebolística portuguesa. Levado para Portugal sob um nome falso, o seu estatuto de indígena não lhe permitira deambular livremente na esfera social do mundo colonial. Por isso, os dirigentes do Benfica falsificaram um teste de conhecimentos. Após esse teste, o Eusébio, agora transformado em assimilado, assinou contrato com o clube da luz.


O Eusébio tornar-se-ia num jogador exímio, mas também num símbolo da aparente harmonia racial existente no império, sendo várias vezes instrumentalizado, como na visita ao Presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar. Na verdade, o Eusébio era nada mais do quem um negro numa terra de brancos, ou um indígena numa terra de colonos, e, caso não fosse o seu talento divinal para o futebol, assim o teria permanecido, nos musseques de Maputo. O percurso da pantera negra é assim inquinado pelo racismo, não abençoado pela falta dele.

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