A Última Palavra
O seu filho cresce forte e
saudável, embora a pobreza e a fome inquinem o seu espírito. Desde cedo acompanha
a mãe no trabalho do campo. Mas, mais tarde, quando tiver corpo e idade
para isso, quando as hormonas da puberdade fizerem dele um homem, irá trabalhar
para as minas, ou, talvez para as roças, ou construir as estradas e os caminhos de
ferro onde os brancos andam. A mãe queria abraçá-lo, guardá-lo no seu colo, contar-lhe
todas as estórias que durante séculos sepultou no seu espírito. Contar-lhe a
sua História. O menino também gostava de não trabalhar. Parar os seus braços. Enrolá-los
ao redor da sua mãe. Mas nunca o fará. Nunca será criança. Nasceu e foi
concebido para trabalhar. Não viverá muito, morrerá num acidente de trabalho,
caiará após o Sol lhe desnortear os sentidos e o peso do trabalho o derrotar. Morrerá sem sepultura. Sem história para contar.
Morrerá sem ter aprendido a escrever. Antes de morrer, todas as palavras que
não dissera, e as que não pudera escrever, continuam presas no seu coração, com
a exceção de uma, que se dissipa no ar:
-Mãe.
Em 1975, a taxa de analfabetismo em Angola era de 85%, na Guiné-Bissau de 90%, em Moçambique de 93%, em Cabo-Verde de 75%, e em São Tomé e Príncipe de 80%. Estes números compravam que, durante o colonialismo português, as vidas negras foram regaladas para segundo plano. Nesse plano, inferior ao do colono, a “missão civilizadora portuguesa” falhou em tratar os nativos com o respeito, a dignidade e a humanidade que eles mereciam. Pelo contrário, a missão privilegiou o branco (o colono), e instrumentalizou o negro, transformando-o numa mera peça de trabalho, e negando-lhe quaisquer direitos. A ausência de uma política educativa para o colonizado é o exemplo disso. O colono impôs um regime que negava ao colonizado o acesso à educação, e condenava-o ao trabalho e à exploração. O protótipo de sistema de ensino que se começa a desenhar após o início da guerra colonial, em 1961, tem uma finalidade propagandística, e destina-se a inserir o “indígena” na cultura portuguesa, de modo a dissipar os crescentes movimentos independentistas, não a instruí-lo verdadeiramente. As consequências desta desconsideração para com o colonizado são as elevadas taxas de analfabetismo que as colónias possuíam na véspera das independências.



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