Mercadorias
“Ele abre a sua boca. Sente uma
força estranha a invadir-lhe o corpo. Ela vem acompanhada por dedos delicados que
apalpam os seus dentes e os analisam meticulosamente. Depois apalpam-lhe os braços,
sentem a força dos seus músculos. Fazem-lhe um sinal e o escravo lança-se numa pequena
corrida, salta também se lhe for pedido. O interessado vira-se para o vendedor
e reafirma a vontade de comprar o negro.
-Este é bom. Você tinha razão, os
da Guiné são melhores.
-Pois são. Nunca ninguém nasceu
sem ter morrido, mas os da Guiné morrem mais dificilmente. São mais resistente,
não são como aqueles de Angola.
O escravo acabara de ser vendido,
outra vez. O negro pensara na mãe, agora não a tinha para se despedir. Aliás,
não tinha ninguém para se despedir. Então, soltou um desabafo que ninguém ouviu:
-Pois, é verdade que os de Angola morrem mais cedo, e que nunca ninguém nasceu sem ter morrido, mas há quem morra sem nunca ter vivido.”
Neste excerto encontramos o nosso escravo prestes a ser revendido. Os mercados de escravos, espalhados pelo Império português, eram estantes humanas onde se vendiam vidas para a sua morte, condenando-as a uma condição perpétua, a de um objeto. Durante as vendas os comerciantes verificavam as "mercadorias", analisavam as suas dentições, apalpavam-lhes, e obrigavam-nas a realizar diversas atividades físicas para atestar a sua capacidade. Durante o tráfico esclavagista criou-se o mito que as "peças" da Guiné eram mais resistentes, sendo estas mais caras.



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