Mãe
"Mãe, estou perdido nesta cidade tão grande. Já não te vejo há tanto tempo. Nas primeiras semanas ainda te via nos meus sonhos, mas agora és uma imagem difusa, que se vai diluindo a cada dia que passa. Não gosto de estar aqui, não gosto da cidade, é fria, barulhenta, mal cheirosa. E o dono é mau, bate-me á toa. Ontem deixei cair um prato lá em casa e levei cem palmatoadas. Já não sinto os meus dedos, não consigo mexê-los sequer. Mãe, cura a minha mão. Mãe, volta para mim. Estou à tua espera mãe, quando é que voltas?"
O tráfico negreiro cedo ganhará proporções exorbitantes, devido ao lucro para a coroa portuguesa, e devido à necessidade de mão de obra, não só para os campos agrícolas, mas também para as minas do Brasil ou as roças de São Tomé. Estima-se que em meados do século XVI, 10% da população de Lisboa fosse escrava. Este rapaz, cuja mãe lhe foi roubada, vê-se perdido numa cidade que não é sua. Após cometer um pequeno lapso durante as tarefas domésticas, é confrontado com um dos castigos mais frequentes da época, a palmatória. Para além do chicote, ou da chibata, a palmatória servia para punir os escravos. O uso desse utensílio, que perdurará em alguns sítios, como nas colónias portuguesas, até ao século XX, originará a expressão "Há que dar a mão à palmatória.".



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