Cria do Paço
“Ela deitou-se. Cedo sente uma
força por cima do seu corpo. Um branco atento assiste ao momento, caso o negro
se entusiasme, esperam-lhe pelo menos cinquenta açoites. Ela conserva dentro de
si as lágrimas que não mostra por vergonha. Passado um tempo, a tortura acaba,
a semente foi colocada. Mas o fruto que der não será seu. O seu dono venderá o
bebé que agora tem no corpo, como se de uma cria de cavalo se tratasse. Marcada,
violentada, ela pensa em morrer. De que vale estar viva sem liberdade? De que
vale ser negra no mundo dos brancos? A mulher chora, é o segundo filho que
perde em menos de um mês.“
Como nos conta Venturino, um italiano do século XVI, nesse século havia um centro reprodutor de escravos no Paço Ducal de Viçosa. O lucro proveniente da comercialização destas “mercadorias” era de tal modo rentável que existem relatos de diversos centros reprodutores de escravos, tanto em Portugal como no Brasil, onde os negros eram obrigados a ter relações sexuais, de modo a originarem “crias” que seriam vendidas posteriormente. A falta de interesse pelo escravo, visto na época como um objeto sem alma, levou a que houvessem muitos poucos registos como aqueles de Venturino. Aqui fica um excerto: “Deixam essas mulheres ser montadas por quem quiserem, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. (…) Destes rebanhos de fêmeas há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias.”.



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